ERA UMA VEZ… / ONCE UPON A TIME ...

 

Era uma vez uma ilha que tinha umas quantas oportunidades de fazer coisas interessantes e de ter produtos bonitos.


Mais ainda, uma boa parte dessas coisas podia ter, associados, os ditos centros de interpretação, ao mesmo tempo que se produziam bens de valor acrescentado, integrados na paisagem, na identidade e na sustentabilidade de que se fala tanto, o que quer dizer que, embora já com décadas e séculos, falamos de bens absolutamente actuais e dentro da recomendada economia verde do futuro.

Algumas dessas coisas já existiram, fazendo, hoje em dia, apenas parte das memórias de um reduzido número de pessoas, algumas outras existem, embora nem sempre com a dinâmica desejável.



Se, por um lado, a ilha podia ter esses bens variados disponíveis, para consumo próprio ou fazer figas aos turistas, por outro lado, o interessante, é que estamos a falar de um conjunto que não se atropelava, antes ficando espalhado, digamos, de leste a oeste e de norte a sul.

Falamos das azeitonas do Porto de Martim Anes, o actual Porto Martins, que nem sempre é fácil encontrar no mercado ou nos restaurantes; do trigo do Ramo Grande, que até tem um núcleo museológico projectado, mas em espera, para não falar das esteiras, tapetes, balaios e outras peças; dos juncos em torno do Paul da Praia da Vitória e, já agora, da espadana ou espadão e dos vimes, com todos os entrançados associados; do verdelho dos Biscoitos, e das outras castas, trazidas para essa ilha há séculos; do pastel dos tintureiros, parente da couve, que permanece no nome da Canada do Engenho, nos Altares, ou numa pedra à entrada da Canada do Tapete; dos queijos possíveis, curados ou não, de cabra e de vaca; do peixe, fresco, fumado ou curado e seco ao sol, que havia, associado aos núcleos piscatórios, etc.




Isso para não falar da tanoaria, das artes do tear, do mobiliário com decoração incisa, do uso – com critérios de sustentabilidade - das madeiras autóctones, promovendo a sua propagação e expansão, e por aí fora…. Tanta outra coisa, como Luís Ribeiro, nomeadamente, listou na sua obra “Indústrias terceirenses de carácter artístico e sua valorização”, publicado no Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, na década de 1950, e republicado nas suas Obras, também edição do mesmo Instituto, em finais do século XX.

Cada uma destas actividades poderia e deveria ter um centro de interpretação e valorização associado, promovendo o conhecimento, o uso, a percepção da sua qualidade contemporânea, salientando a sustentabilidade ecológica e a autenticidade. Coisas que, se interessam, cada vez mais, aos visitantes e turistas, era bom que fossem do conhecimento, gosto e interesse local dos habitantes da tal ilha.

Por outro lado, também, nada impedindo que o mercado intervenha, criando queijos como o Milhafre, só porque a marca pode servir de guarda chuva a vários produtos, talvez valesse a pena perceber porque é que o queijo Castelinhos se continua a chamar assim, quando podia ser Castelinho e ser “colado” à fortaleza, e desse modo divulgado, do mesmo modo que o desaparecido queijo Monte Brasil, da UNICOL, talvez pudesse renascer, mantendo e cultivando a associação ao dito monte que até vem descrito no canto 9º de “Os Lusíadas”.


Tudo isto passa, naturalmente, por acções concertadas e, principalmente, por acções que valorizem, dentro da comunidade, o gosto, apreço e uso.

Enfim, era uma vez uma ilha, que podia…

(As imagens são retiradas das páginas correspondentes à ilha Terceira e Açores, publicadas no Thresor de Chartes, Contenant Les Tableaux De Tous Les Pays Du Monde: enrichi de belles descriptions, reveu & augmenté. Imprimé par Christoffle Guyot. 1602 Pour Corneille Nicolas. )


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Once upon a time there was an island that had a few opportunities to do interesting things and to have beautiful products.

Furthermore, a good part of these things could have, associated, the said centers of interpretation, at the same time that they produced goods of added value, integrated in the landscape, in the identity and in the sustainability that is talked about so much, which means that , although decades and centuries old, we are talking about absolutely current goods and within the recommended green economy of the future.

Some of these things already existed, making, today, only part of the memories of a small number of people, some others exist, although not always with the desired dynamics.

If, on the one hand, the island could have these varied goods available, for its own consumption or make fingers crossed for tourists, on the other hand, the interesting thing is that we are talking about a group that did not run over, but rather spread out, say, from east to west and from north to south.

We talk about the olives from Porto de Martim Anes, the current Porto Martins, which is not always easy to find in the market or in restaurants; the Ramo Grande wheat, which even has a projected museum nucleus, but on hold, not to mention mats, rugs, baskets and other pieces; the reeds around Paul da Praia da Vitória and, by the way, the espadana or espadão and wickerwork, with all the associated plaits; the verdelho dos Biscoitos, and other grape varieties, brought to this island centuries ago; the pastel dos tintureiros, relative of the cabbage, which remains in the name of Canada do Engenho, in the Altares, or in a stone at the entrance of Canada do Tapete; possible cheeses, whether or not matured, from goat and cow; of the fish, fresh, smoked or cured and dried in the sun, which was associated with the fishing nuclei, etc.

Not to mention cooperage, loom arts, furniture with incised decoration, the use - with sustainability criteria - of indigenous wood, promoting its propagation and expansion, and so on…. So much else, as Luís Ribeiro, in particular, listed in his work “Terceirenses industries of artistic character and their valorization”, published in the Bulletin of the Historical Institute of Ilha Terceira, in the 1950s, and republished in his Works, also an edition of the same Institute at the end of the 20th century.

Each of these activities could and should have an associated interpretation and valuation center, promoting knowledge, use, and the perception of its contemporary quality, emphasizing ecological sustainability and authenticity. Things that visitors and tourists are increasingly interested in, it was good that they were of the knowledge, taste and local interest of the inhabitants of the island.

On the other hand, also, nothing preventing the market from intervening, creating cheeses like Milhafre, just because the brand can serve as an umbrella for several products, it might be worthwhile to understand why Castelinhos cheese continues to be called that way, when it could be Castelinho and be “glued” to the fortress, and thus disseminated, in the same way as the disappeared Monte Brasil cheese, from UNICOL, perhaps it could be reborn, maintaining and cultivating the association with said hill that is even described in the 9th Canto of “ The Lusíadas ”.

All of this, of course, involves concerted actions and, mainly, actions that value, within the community, taste, appreciation and use.

Anyway, there was once an island, which could ...

(The images are taken from the pages corresponding to Terceira and Azores, published in Thresor de Chartes, Contenant Les Tableaux De Tous Les Pays Du Monde: enrichi de belles descriptions, reveu & augmenté. Imprimé par Christoffle Guyot. 1602 Pour Corneille Nicolas.)